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domingo, 24 de abril de 2011

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A moça...

Eu nunca entendi o porquê de destilar toda essa felicidade virtual insípida e exacerbada em frases de perfil mastigadas por tantas redes sociais. Aquele subnick em caixa alta, a replicação exagerada da sílaba tônica de alguma palavra de efeito e todas essas fotos de menina desarraigada de tudo e de todos só escorrem tristeza e insegurança.
Sou patética. Digo isso não como descoberta, e sim como atestado. Nunca tive objeções em ser boba quando estávamos juntos; você fazia disso tudo uma arte. Às vezes, eu morria de vergonha e de rir só por conta dessa tua mania de fazer pouco das convenções sociais de etiqueta e comportamento. De fato, essas lembranças ainda me arrancam um sorriso de canto de boca, e foi assim até eu te ver ao longe, de mãos dadas, conversando com outra garota.
Hey! Essa covinha é minha! Não sorria para outra pessoa!
Sou possessiva, chata e, absolutamente, patética. Você sempre foi tão enérgico em tudo que dizia. Gesticulava, encenava, simulava até os sons de onomatopéias com a boca, enquanto eu apenas ria com os olhos. Com esse ar de garota tímida, costumava sussurrar sentimentos e prazer apenas ao teu ouvido, mas agora, grito desesperadamente em frases de MSN uma felicidade que jamais será minha. Também sou egoísta; não quero sofrer sozinha, barganho tua companhia ao menos em meio a uma dor de consciência compartilhada. Por isso faço um escândalo para todo mundo, no intuito de que apenas você repare, na esperança de que só você se importe.
Combino noitadas, saídas, baladas com as amigas, quase como um paleativo para a dor de uma doença que não tem cura imediata. Gasto uma semifortuna em adereços para rebocar, sem sucesso, o muro de tristeza que oprime o meu coração. Esse muro que me deixa estagnada em hipóteses de uma vida a dois, mas que futuramente será corroído pela ação do tempo, ou talvez, só talvez, seja demolido pelo retorno do sorriso que movimenta o meu mundo.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

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Suíte...

A barba por fazer indica um desleixo que, estranhamente, combinava com o esmero empenhado em cada nota trocada com seu violão. Trabalha, improvisa, mescla escalas e abre trilhas ainda não percorridas pelas estradas dos pentagramas, se regozijando após cada colcheia transcrita, a compor o quebra-cabeça que existe completo apenas em sua mente.
Para Leonardo, o violão é uma mulher de gênio forte. Ele começou a admirar de longe, supondo o quão difícil deveria ser conquistá-la; ponderou os contras, mas sentiu o coração inquieto ao vê-la conversar. Desenterrou a coragem e tentou puxar um assunto qualquer, sem sucesso. Riu desconsertado e tentou novamente, dessa vez, uma conversa mais genérica e premeditada. Ela o surpreendeu com respostas que machucam o ego, que o fizeram ver que ele não estava no controle. Ela não se importa com quem ele é, ou com o que possui, apenas exige um caráter perseverante que a valorize devidamente.
Apesar da falta de apoio de alguns amigos, Leonardo insistiu e foi conquistando-a progressivamente. Sentia orgulho ao andar de mãos dadas em locais públicos e, aos poucos, percebeu a sintonia entre os dois a acompanhar o ritmo acelerado de seu coração. Entrava em êxtase sempre que tinha uma novidade que proporcionava tão boa interação entre os dois. E hoje, depois de mais de 20 anos de convívio, mesmo conhecendo tão bem um ao outro, ela nunca perde a capacidade de surpreendê-lo.
Engolfada pela presença dos arpejos, a noite passara apressada, e agora os primeiros raios de sol começam a se desembrulhar das nuvens, irradiando luz sobre a partitura não terminada e aquecendo a pele descorada de Leonardo, quase tanto quanto a música aquenta o seu interior.

segunda-feira, 21 de março de 2011

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Conselho...


Quem te vê assim de longe, com esse corpo miúdo, abraçando todo mundo com o sorriso, logo trata de dar um rosto ao que imagina ser a gentileza. E não se engana; a tua cortesia é tão explícita que já se tornou um clichê te chamar de bacana. Eu, que já reparo em ti desde o último inverno, tive a oportunidade, quase sem querer, de te despir de toda a paciência e enxergar o teu lado mais vulnerável.
Sempre imaginei o porquê de ser tão mais fácil agir gentilmente com pessoas-paisagem, em comparação àquelas que mais nos conhecem. Talvez seja pela conveniência do altruísmo imediato. Sem manutenções, sem explicações, sem barganha sentimental; apenas ação e reação, obra e gratidão, ato e boa impressão. Não é exatamente uma espécie de hipocrisia, está mais para um relacionamento alternativo em contradição à eterna lei de que mais machucamos e somos machucados por aqueles que mais amamos e, provavelmente, pelos que mais se importam conosco.
Naquele dia, bastaram algumas palavras: uma questão ou outra, corriqueiramente formuladas, para flanquear os teus sentimentos e me fazer sentir, num jorro, o pus da mágoa a espirrar em minha face atônita. Você ainda tentou tapar a ferida com as mãos do embaraço, mas as palavras desciam quentes pelo meu rosto, e eu pude perceber que ali havia peso até para atribuir à tua mania de arrastar os pés ao acordar.
Não precisa me fitar com esse olhar tão preocupado, menina. Não sei se por eu ter te visto tão inerme, ou por perceber que eu não fui o maior merecedor daquelas palavras densas, mas o que realmente importa é que eu também tenho meus flagelos e, supostamente, entendo uma parte de tua aflição.
Eu sei que você provavelmente não vai ver a lógica do que vou te dizer, mas a melhor atitude a se tomar é perdoar. Não, nem de longe estou dizendo que vai ser fácil: o perdão é o merthiolate da alma. Daqueles antigos, que ardem uma brutalidade, mas que as pessoas passam porque faz a ferida sarar mais rápido. Ninguém perdoa apenas quando sente a vontade, perdoa-se porque é o melhor que podemos fazer conosco.
Claro que os machucados não vão ser curados da noite para o dia e, se alguém bater a mão em cima, ele provavelmente ficará mais danificado que antes, mas ainda sim, não é motivo para deixar de usar o remédio. Quanto maior a área atingida, mais vai arder, contudo, se você é tão forte para suprimir a dor dessa infecção, sei que também conseguirá suportar a dor do tratamento.
Sei que a nossa experiência de vida pode nos deixar mais relutantes a subirmos em locais altos, ou talvez nossos tombos nos impeçam de correr por aí de forma tão despreocupada, mas se continuares o tratamento, certamente algum dia a ferida que outrora vi erigir, vai cicatrizar, e a superfície do teu coração voltará a ser tão lisa quanto teus longos cabelos negros.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

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Melhor não contrariar...

Ok. Uhum. Certo. Tá bem. Já entendi. Não faço mais. Já ouvi. Tranquilo. Tudo beleza.
Até mais, pai.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

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50 no corpo de 20...

Mal adentrei ao recinto e já fui recebido com um abraço junto a um pedido de explicações sobre o atraso. A gravata rosa cintilante ainda rendeu um par de piadas, mas esse teu terno... Cara, tu se formou!
Logicamente, não abstraí a unicidade desse fato logo de cara. Estava muito ocupado perambulando por entre as mesas, cumprimentando a família que eu já considerava tão minha quanto tua. Todas as tias e avós que já me tinham por filho, sobrinho, neto, enteado... Que sempre faziam questão de me apresentar para os ainda não conhecidos, como o garoto que cresceu junto aos familiares; menino bom, educado, e todos esses adjetivos próprios das avós para com os netos. Sentir-me tão querido sempre fez meus olhos brilharem ao falar sobre vocês para qualquer um, mesmo com a notável distância física que o tempo e a rotina impuseram entre nós.
Só um evento importante assim para reunir amigos de colegial. As tentativas frustradas de marcar um jogo de futebol, uma pizza ou uma noite de video-game foram todas vingadas em grande estilo. O tempo fez bem às nossas fisionomias, contudo, os apelidos da época na qual éramos conhecidos por nossas características mais desengonçadas, ainda predominam em encontros tão nostálgicos.
Tão logo sentamos juntos, uma música saudosa começou a tocar, enquanto confabulávamos sobre eventos que eu nem lembrava mais. Houve aquele silêncio intangível, quase como uma epifania coletiva, seguida da saudade de todos os solados de pé perdidos no asfalto, dos anseios de namoricos do ensino médio e de todos os momentos embaraçosos dignos apenas dos adolescentes. Uma overdose de lembranças a despencar com o peso dos anos que eu sequer possuía.
E agora você tá formado, cara! Estamos realmente trabalhando e já temos direito a dizer que "as coisas do nosso tempo eram diferentes". Tudo bem, essa minha velhice precoce sempre será exagerada e, provavelmente, vai me acompanhar pelo resto da vida. Todavia, dizem que a sabedoria acompanha a velhice. E eu realmente creio que poucas coisas são mais sábias que valorizar antigas e duradouras amizades.