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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

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Dans une autre vie...

Já fazia tempo que caminhávamos por entre essas árvores comportadas, trocando conversas miúdas e olhares entrecortados, mas nunca percebíamos o tempo, a avançar sempre com um passo mais apressado que o nosso. Já eram mais de 5 da tarde e o sol, preguiçoso, nem ameaçava machucar, mas ainda me forçava a pôr a mão diante dos olhos, num esforço de fixar o olhar em ti enquanto éramos cada vez mais envolvidos pelas meias-sombras das torres de Saint Etienne.
Adentramos poucos metros por um corredor, até pararmos instintivamente num daqueles momentos de intervalos silenciosos, onde o vento não era suficiente para quebrar a tensão conciliada pelo tempo e pelos olhos. Os vitrais da catedral ainda despejavam luz sobre minha lateral, mas agora, o que me ofuscava era esse outro sol, me mostrando os dentes enquanto o meu coração acelerava inescrupulosamente durante o simples levantar de mãos.
Desenrolei o teu cachecol meticulosamente, tentando disfarçar minha tremulação, aproximei-me e sorvi o teu perfume. Tinha um cheiro de mistério, tensão e desejo, disfarçados de hesitação. Os olhos, que antes me encaravam, agora fitavam o chão rústico e empoeirado.
"André, André... Melhor pararmos..." - Alertou.
"Parar o quê, Maria Luiza? Não está acontecendo nada..."
Eu não tinha planejado o que deveria falar em uma situação como essa, mas o meu comentário expressivamente cínico ainda arrancou-lhe um meio sorriso que levou consigo a rigidez dos ombros e braços. Luiza sempre conseguia me impressionar com a capacidade de antecipar o que eu ia dizer, mas dessa vez, fui eu quem a surpreendeu.
Já desistente da idéia de ocultar qualquer sintoma do nervosismo, passei a mão gélida sobre o seu rosto e a beijei. O roçar dos lábios desenfreou o desejo, foi como o golpe de misericórdia no receio, o algoz da inquietação. Sempre tentei lembrar de cada momento daquela tarde, mas a adrenalina, por compaixão, apenas deixou-me imagens não cronológicas. Luiza, com o pescoço esticado, olhando as abóbadas góticas sem enxergá-las. As cores dos vitrais em harmonia com cada poro de seu corpo. E as suas mãos, em volta de meu corpo, enquanto me lançava um olhar que certamente me perseguirá por toda a vida.

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